25 de novembro de 2012

Preguiça de entender (Ou quase isso)



Era aceitável que eu me perdoasse pela falta de pontualidade ao chegar na sala de aula naquela segunda-feira preguiçosa, mas perdoar a professora por me fazer encontrar dezesseis livros de português pela escola – por falta de responsabilidade do resto da turma – não era nem um pouco aceitável.

Primeiro as escadas, aqueles longos degraus em que eu deveria encarar com a respiração firme, mesmo sabendo não ter sucesso fazendo esse tipo de exercício. Depois a vergonha de bater a porta e dizer em tom suave o por quê de estar atrapalhando a aula e por fim, carregar todos aqueles livros pelas escadas e correr o risco de ouvir reclamações da professora pela minha demora. Mas, aliás... O que eu poderia esperar de uma segunda-feira?

Antes de qualquer coisa eu precisei respirar e olhar pros lados para que não me pegassem fora da sala no horário de aula e então num movimento quase que involuntário, bati na porta da turma 101c e pedi aos céus que não houvesse ninguém ali dentro.

Foi um “toc toc” que ecoou meus ouvidos e me fez ficar mais irritada do que de costume e que aumentou em vinte vezes meu estresse quando vi a porta se abrindo causando um rangido irritante e que me deu nervoso nos dentes.

Pois não? - Disse bem lá no fundo uma voz calma e atenciosa.

Tomei coragem para olhar e encontrei o sorriso daquele menino bem ao fundo iluminando meu caminho. Ele não era tão velho... Mas era velho para estar no primeiro ano, mas isso não me espantou, apesar de ser uma boa escola, havia um grande número de repetentes e ele só seria mais um...

Pode falar. – Ele insistiu.

A verdade é que eu não queria falar com ele, era tão jovem e sadio que só de sentir meu coração com pulsamentos rebeldes, tinha medo. Eu queria encontrar um ponto fixo para olhar se os olhos dele não fossem tão viciantes e se... Não estivem cada vez mais perto.

Diga... Eu não tenho muito tempo. – Repetiu.

É que, eu preciso de uma ajuda. Mas eu preciso falar com o professor. - Disse, sentindo minha voz falhar.

Sem nem porque nem pra que, ele riu. Uma gargalhada gostosa que fez minhas pernas tremerem e meu coração disparar feito um cronômetro com defeito. Pude ver minha pela corar e meus olhos fecharem de tanta vergonha. Eu estava ali, frente a frente com aquele menino sem nome, sem idade e sem – até então – identidade. Quem ele era? Porque estava rindo? Será que eu estava me apaixonando e ele percebendo?

Pude ouvir o silêncio... É estranho, mas eu posso garantir. Ele veio pra fora e encostou a porta. Tive medo, vontade de beijá-lo ou sei lá, era como se eu o conhecesse, dos corredores, das saídas, mas eu não lembrava exatamente e foi quando me perdi no piso sujo por vergonha e ouvi atenta:

Eu sou o professor, querida.


11 comentários:

  1. Sua sensibilidade pode ser sentida em cada descrição, em cada frase construída... O ritmo da sua narrativa tem o ritmo de sua sensibilidade! Lindo texto! Continue, continue, continue...

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    1. Há pequenas coisas que me fazem continuar e suas palavras é uma delas. Obrigada ♥

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  2. o que será que houve depois dessa breve e espantosa frase ? curioso pra saber;

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    1. Não pensei nisso ainda e tem sido difícil assumir. Uma hora um penso, um dia, numa dessas minhas gavetas eu acho o que aconteceu e venho te contar!

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  3. Como a Flávia disse, sua sensibilidade é muito perceptível na sua escrita. Adorei, sweet! Seu blog em si tá lindo demais.

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    1. Que bom que gostou, espero ter você aqui mais vezes. Beijos!

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Lyv Linda, só digo uma coisa: não pare de escrever. Me senti dentro do texto e fiquei presa nele até o fim. Como já disseram, continue...

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    1. Continuarei, enquanto eu tiver vida. Ou talvez até quando eu já não mais tiver.

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  6. E não é que o encontro com o professor foi surpreendente e arrebatador. Curti sua narrativa mansa e bem pontuada. Legal! A propósito, aceite o convite e venha ver meu texto de literatura amadora de número 292! >>> O http://jefhcardoso.blogspot.com lhe espera. Abraço!

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    1. Cotidiano bate a porta e é preciso transformá-lo em poesia.

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