13 de janeiro de 2012

O Menino do Circo - Parte II

Parte I aqui 

Mesmo sabendo que era a pedido dele, que eu estava ali novamente, depois de trocar pequenas e pausadas palavras, sem saber se era certo ou não atravessar a avenida para chegar mais perto e ver aquele sorriso brilhar refletindo nos meus olhos.  Minha insegurança fazia com que contra minha vontade, meus pés ficassem presos ao chão, porque apesar de querer seguir, eu não conseguia.

Respirei fundo, olhei para os dois lados da rua movimentada e cheguei ainda mais insegura na porta de entrada. Observei ao redor e sem saber para onde ir, um tanto quanto perdida, quase desistindo por achar que tinha levado essa história muito a sério, sentei na calçada, passei minhas mãos em volta da cintura e disse em tom moderado:

- O que eu faço agora?

Ouço as buzinas como se elas estivessem a anos luz de distância e começando a ficar desesperada, por saber que mais uma vez algo não dava certo, procuro um apoio e uma oportunidade de força para levantar-me, virar a esquina, chegar em casa e voltar para a rotina que desgasta. Fecho os olhos e ouço alguém se comunicar:

- Agora? Tudo o que você tem que fazer é levantar e acompanhar-me até o Café. O resto você faz depois.

Levanto, tentando disfarçar minha falta de habilidade ao olhá-lo claramente de cima a baixo, pensando numa resposta gentil quando ele continua:

- Achei que você não viria. – ele disse atravessando seus dedos nos meus e me conduzindo para cima da calçada. – Você tá bem?

- Claro! – respondi com a respiração ofegante – Na verdade, eu achei que você não apareceria.

- Mas eu apareci – ele sorriu – Nunca vou deixá-la esperando.

Chegamos ao café e pelo pouco conhecimento dele por aqui, surpreendeu-me escolhendo o lugar mais reservado ao fundo, no canto da parede e acidentalmente, meu lugar preferido. Ele fez um gesto educado para o garçom e fez o pedido:

- Dois cappuccinos! – ele me olhou – Pode ser?

Fiz que sim com a cabeça e não contive a curiosidade:

- Como sabe que gosto de cappuccino?

- Durante o espetáculo a vi tomando uns dois ou três. – Ele se inclinou em minha direção e passou a mão de leve no meu rosto – Eu disse que tinha te observado.

É justamente nessas horas que fico sem ter o que fazer e o que falar. Perdi-me nos olhos cheios de vida dele. Observei os lábios naturalmente rosados e quase os esbarrei no meu. O jeito que ele sorria e a forma perfeita com que o perfume dele ficava no ar, era fascinante. Quando por um motivo tolo, eu tentava desviar o olhar, ele conseguia fixar minha atenção a ele, e isso nunca havia acontecido antes.

- Aqui está. – Disse o garçom assassinando nosso momento.

Nos afastamos – infelizmente – e assim pude sentir minha pele queimar e corar de vergonha. Abaixei o olhar e puxei minhas mangas devagar e mesmo com o olhar perdido do dele, sou capaz de percebê-lo me olhando. Dou um gole demorado no cappuccino e vejo que ele me acompanha, faço uma pausa imaginando se interrompê-lo agora é desagradável e antes que eu busque as palavras ideais para um diálogo, ele diz:

- Meu pai planeja ficar aqui por bastante tempo – ele tira as mãos de cima da mesa e as coloca em seu colo – o lugar aqui é bem movimentado.

- É sim. – confirmo balançando a cabeça.

Com toda nossa timidez embrulhando esse encontro, achei que seria impossível seguir com as palavras quando mais uma vez ele me surpreendeu. Com o olhar fixo no meu, caminhou pela sua história, me contando tudo detalhado e devagar. Disse que havia virado trapezista em homenagem a sua mãe que morrera no parto. Ela era a trapezista e após sua morte, o circo seguiu sem os belos saltos de Sra. Lina e essa foi à forma que Eduardo encontrou de agradecê-la pela vida. Apesar de criado pelo pai e pelos tios – que também fazem parte da companhia – seu afeto a ela demonstra que o infinito que os separam, nunca será o suficiente para apagar esse amor.

Fomos andando até a porta do Café e tudo que encontrei no caminho, foi o silêncio e as mãos dele entrelaçadas na minha cintura.

- Adorei te conhecer melhor, Sara... Vamos nos ver mais vezes? – ele diz, me puxando pra perto.

- Claro que sim, adorei passar à tarde com você, sua história é bem bonita. – Digo menos nervosa do que realmente estou.

Então, fico ali parada, inquieta por não saber o que fazer de novo. Enfim consigo ver na cor dos olhos dele, a minha imagem e cada vez mais perto sinto o calor da sua pele macia encostando-se à minha. Uma das suas mãos passeia nas minhas costas e a outra coloca meu cabelo no lugar. Os minutos rastejam até que ele encontra meus lábios, passeando por um circuito longo e cheiroso. Nossos lábios se esbarram e se entrelaçam demoradamente, até não poder mais. 

12 comentários:

  1. Lyvia, acompanho o seu blog a um tempo. E adorei todos os contos, mas ese... tirou meu fôlego! Parabéns, você escreve maravilhosamente bem. Muito sucesso pra você, viu? Beijão.

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  2. Que lindo, Lyv! hahaha
    Já me ocorreu algo semelhante, tá, nem tanto.
    Eu era pequena, etc. O "conto" ficou ótimo, rs

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    1. Sério? Que bom que gostou!
      Em breve terá mais. Aguarde!

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  3. Olá querida, amei seu blog super fofo, aguardo uma visitinha se seguir ficarei feliz e com certeza volto aqui e retribuirei, é só deixar seu link no comentário beijos www.mulherquesecuida.com

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    1. Maria, obrigada pela visita mocinha.

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  4. Poxa!
    Eu gostei tanto. Fazia tempo que não lia um texto romantico tão sensivel.

    Parabéns!

    Acompanharei os proximos capítulos.

    Beijo

    Vã.

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    1. Mulher Vã, te espero aqui, nos próximos capítulos.

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  5. Vai ter parte III? Ansiosa.

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Conta pra mim o que achou, vou adorar responder.