2 de janeiro de 2012

O Menino do Circo - Parte I

Para meu Eduardo, que sabe voar!

A luz dos olhos coloridos do bilheteiro do circo que chegara à cidade fustigava ansiedade e vontade de fazer bonito.  Suas luvas brilhantes e chamativas conseguiam pegar o dinheiro das mãos dos curiosos impacientes que mal podiam esperar para assistir algo tão maravilhoso.

- Quantos? – disse o bilheteiro, revelando sua voz misteriosa, que eu já imaginara algumas vezes.

- Apenas um, por favor. – respondi com a voz terrivelmente falhada e peguei o ingresso.

- Aqui está. Bom espetáculo, moça.

Fiz um gesto positivo com a cabeça, guardei o ingresso no bolso da calça jeans surrada e direcionei-me até a fila de entrada. Sendo a sexta da fila, torço para pegar um bom lugar já que sempre me atrasei para espetáculos como este e acabava sentando em qualquer lugar mesmo.

Quando cheguei ao interior do circo, escolhi uma cadeira estratégica e aconchegante para que ninguém reparasse nos meus risos bobos e na minha face de tensão quando alguma atração fosse de provocar medo ou adrenalina em excesso em mim.
Pouco a pouco todos os lugares estavam sendo preenchidos por pessoas de qualquer idade, o que me deixava mais à vontade e o que fazia com que minha dose de vergonha por ser a única jovem de dezesseis anos ali, se esgotasse de minuto a minuto.

Observei as bailarinas darem início aos olhos curiosos a abismados com aquela dança calma, que rodava ao centro e prendia a si, todos em volta, com as luzes ainda acessas. Aquele som agradável de Yann Tiersen que quebrava o ar engraçado do lugar, já foi maravilhado por mim algumas vezes. E nem a falha quase que imperceptível da bailarina de roupa azul celeste foi capaz de mudar o encanto que envolvia meus olhos ao assistir algo tão simples e deslumbrante.

A música parou no instante certo e os holofotes de luz foram se apagando, pouco a pouco, até que tudo enfim ficou escuro, fazendo com que todas as imperfeições da estrutura do circo desaparecessem. Pude perceber algo sendo mudado lá em baixo e estranhei a demora, mas entre o espaço que tive entre respirar e expirar,  pude ver os focos de luz subindo e as luzes coloridas correndo a lona. As tradicionais cortinas vermelhas foram abertas e os aplausos foram se espalhando... E o espetáculo começava agora!

À medida que minha freqüência de risos aumentava meu arrependimento em perder um dia da novela das seis, evaporava, como se essa ideia nunca tivesse sido cogitada.

Resistir aos truques de magia nunca foi meu forte, e aceitar que a pequena menina tinha saído ilesa das divisões feitas com placas de metal em seu corpo, dançando como se nada tivesse acontecido. Era realmente o fato mais incrível até agora. Truques de magia me prendem e fazem com que me sinta mais curiosa do que a vida já me ensinou a ser.

Foi quando deslizei meus olhos até o topo da lona e vi se aquecendo um menino com a face pintada de branco, de cabelo preto-liso e com uma roupa não muito bonita. Fiquei hipnotizada, não sei se pela altura em que ele se encontrava ou por ele mesmo. Já não escutei mais nada. Foi só piscar e ele passou de um trapézio a outro, sem falhar. Meu coração palpitou forte e minha respiração demorou a voltar ao normal. Então, ele atravessou mais uma vez e desceu despreocupado pelo lenço cinza. Agradeceu com um gesto educado e andando até a cortina esbarrou o olhar no meu. Sorriu e foi para trás da cortina.

Depois dele, nenhuma atração me importava mais.

Logo que o espetáculo terminou, busquei a saída ainda deslumbrada com os movimentos do menino. E foi cruzando pela mesma porta que entrei, com a placa invertida, que senti alguém colocar a mão no meu ombro e apertar de leve:

- Menina? – Escutei enfim, e olhei assustada. – Eu te vi lá dentro, gostou do espetáculo?

- Oi – minha voz saiu tragicamente falhada, novamente – Desculpa eu não me lembro de ter te visto. – Respondi ainda um pouco confusa.

- Mas eu te vi – ele sorriu – Como você se chama?

- Sara – disse rápido, reconhecendo o sorriso – E você?

- Prazer Sara. Eduardo, o trapezista. 

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Tesouros, esse conto vai ser divido em várias partes por ser bem longo. 
E é meu presente de começo de ano pra vocês, já que graças ao Blog e mais um tanto de coisas que vem acontecendo, esse ano tá começando bem melhor do que eu esperava. 
Apreciem e prometo não deixá-los curiosos por muito tempo e logo, logo, posto as continuações aqui. Lembrando que esse conto é bem importante pra mim porque ele é uma história real, que tive o prazer de viver, contado aqui com um toque de magia. 
Um ótimo começo de ano pra vocês!
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20 comentários:

  1. Ai, ai, esses Eduardos e Edwards... Me apaixonei pelo conto e quero mais. E agora, dona Lyv? Meus parabéns!

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    1. Th, já terá mais, lhe garanto!
      E obrigada, pequena.

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  2. Posso dizer que eu já fui fascinada por um trapezista de circo? Ah tá. Coincidências, parem de me perseguir!
    Nem preciso falar que estou louca pra ler o resto, né Lyv?
    - Olívia

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    1. Coincidências acontecem, e isso é bom porque você se identificou com o texto, certo?
      Obrigada pela visita!

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  3. Ansiosa pela segunda parte.

    Lindo o seu blog, voltarei muitas vezes :D

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    1. Logo virá a segunda parte, mon cher.
      Volte mesmo, eu adoro visitas!

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  4. Sempre soube dessa história com o menino do circo, mas não com tanta intensidade e tão detalhada! Quero logo ler o resto! Adoro o blog, hihi. Beijos ;**

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    1. Você era uma das poucas pessoas que sabia desse meu pedaço perdido.
      Obrigada pela paciência... Te adoro!

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  5. Anônimo7:05 PM

    Lyyyyv sua pefeita. :3
    Andriele aqui. ♥

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    1. Moça linda, obrigada por vir aqui!

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  6. Olá! Que fofa, muito obrigada por seguir, faz um bom tempo que eu queria voltar para a vida de blogguer, rs. Um amor aqui, de verdade, adorei a forma que você escreve e o seu Flickr tem fotos lindas. Com certeza voltarei sempre.

    Um beijo.

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    1. Obrigada Bru, volte muitas vezes. Tua visita deixa tudo mais agradável.

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  7. Que bonita a forma como você escreve...
    "A música parou no instante certo e os holofotes de luz foram se apagando, pouco a pouco, até que tudo enfim ficou escuro, fazendo com que todas as imperfeições da estrutura do circo desaparecessem."
    ...bem encantadora, mesmo. (:

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    1. Tesouro, encantador é tê-la por aqui, viu?

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  8. Mocinha, tô ansiosa pra ver as outras partes desse conto. Tenho vindo aqui no teu espaço umas muitas vezes, e poucas me dou ao luxo de comentar. Desleixo meu. Enfim, só queria te parabenizar, mesmo. Grande talento o teu.

    Forte abraço.

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    1. Obrigada pequena, fico muito feliz com você aqui. Teu perfume já ficou gravado.
      Beijo no teu coração.

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  9. Olha! Indo ler a continuação!!

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  10. Quanta doçura em suas palavras *-*

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Conta pra mim o que achou, vou adorar responder.